segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Auto-retrato


Meu aceno anuncia que sou um homem que tem na alma a mesma força motriz dos planetas.
Hoje, depois de velho, sei que estive em busca da busca. Sou um cão de barriga cheia e que mesmo satisfeito vai atrás de um bife quando o fareja. Este cão que só é fiel a ele mesmo dorme tranqüilo com suas pulgas.
Um dia descobri como encontrar Deus: deixei a barba crescer e escalei uma montanha. Perguntei a ele coisas que não soube me responder. Deus tinha uma maçã na boca, mas eu bem que vi seu sorriso por trás da fruta. Com sua mudez me ajudou a compor meus próprios dez mandamentos que gravei na bandeja de prata de um bar. E foi assim que transformaram as minhas leis em canção que hoje toca no rádio dos carros mortos do ferro velho. Quando era menino vi um carro parado sangrando um laranja ácido e desde então neguei este destino.
Sou feliz, pois aprendi a rir com o espelho, enquanto via no retrovisor homens enforcados em gravatas de seda.
Certa vez, sonhei com grãos de bico voando no céu, mas o que almejo mesmo é atropelar o pôr do sol.


(Bárbara do Amaral escreveu este retrato em 1ª pessoa a partir do auto-retrato feito em colagem por Lucas R. Rey)

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“Sentimos vontade de muitas coisas

Sentimos vontade de ter um carro possante

Lindo, de cor vermelho, brilhante.


Sentimos vontade de voar,

Abrir os braços e deixar nossa mente

nas nuvens nos levar a sonhar.


Sentimos vontade de ir para lugares agitados

E às vezes, queremos apenas um cato sossegado.


Sentimos vontade de sorrir, pular e dançar

Sentimos vontade de nos divertir.

Temos vontade sermos receptivos, simpáticos.

E até mesmo antipáticos.

Sentimos vontade de escrever para despertar o coração.

Temos vontades e sonhos.

Está em nossas mãos tornar nossos sonhos e vontades em nossa realidade.”

(E este é o retrato em 3ª pessoa feito pelo próprio Lucas)

"Diálogo"



  • Ela é criativa e faladeira, gosta de comida, computador e de onde ela mora.

  • Sério? Nossa, que legal!

  • Na cabeça dela, passam mil coisas por minuto! Muitos assuntos, muitas brincadeiras, muitos sentimentos, muita seriedade. Muitas cores!

  • Como você descobriu tudo isso?

  • Foram muitas tentativas. Na última, consegui entrar de cabeça em seus pensamentos. Ela parece ser meio avoada, com a cabeça e a mente na Lua.

  • Nossa, mas...

  • E também pensa em assuntos importantes, que possam mudar o mundo.

  • E...

  • Ama conversar! Conversa sobre tudo. Sobre o que gosta de fazer, sobre o que quer fazer, sobre o que tem que fazer. Sobre melhorar o mundo, sobre natureza.

  • Olha, eu realmente...

  • E computador, então? É seu hobbie preferido. É o lugar onde mais passa o tempo.

  • Mas então...

  • Gosta de tudo quanto é comida: alface, carne, arroz, batata... E também ama São Paulo, seu Estado. Diz que tem muitas coisas para fazer. Ela brinca, estuda, pinta, joga, descobre, TUDO! Realmente uma pessoa que pensas muito.

  • Ah! que ótimo! Bom, tenho que ir! Até logo!

  • Até!


(Anna Beatriz escreveu esse retrato em 3ª pessoa a partir do auto-retrato feito em colagem por Beatriz)

A tal garota






A tal garota (ou garoto, nunca se sabe) é vaidosa e, talvez, algo me diz, alegre, espontânea, e por algum motivo, que eu não sei bem explicar, ela me parece ousar. Alguns diriam que... sim. Outros, que não. Eu prefiro buscar um meio termo – nem de mais, nem de menos. Pelo visto, ela gosta de viajar. E quem não gosta? Ela parece gostar de tecnologias, mas nada muito exagerado. Chocolates... ela gosta. Creio eu que todos gostam ou, pelo menos, quase todos. Acho que ela é consumista. Não tenho certeza. Espera... talvez não. Quer dizer, isso é apenas uma dedução.

(Bruna escreveu esse retrato em 3ª pessoa a partir do auto-retrato feito em colagem por Vitória)

Tantas


Se eu fosse um bicho: leão.

Se eu fosse planta: flor.

Se eu fosse um esporte: corrida.

Se eu fosse um prazer: comida.


Mas sendo quem sou (e sou tantas e tantos e tanto!)

Posso às vezes ser leão e às vezes passarinho

Às vezes flor, às vezes só o espinho

Posso correr ou acabar ficando

Só, parada, respirando.


Posso comer de tudo, aos montes, mas

posso alimentar o mundo

De sonhos, esperança ou fantasia

De um dia

Em que todos se virem tantas e tantos e tanto

Se alcançar a paz.


(Simone Alcântara escreveu este retrato em 1ª pessoa a partir do auto-retrato feito em colagem por Mayara)



Pertencimento


Nasci casualmente. Não foi coisa de mãe e pai. Apareci na barriga de uma mulher, logo saí dela e comecei a ocupar o mundo sem chamego ou apego.

Gostava de correr na terra, me banhar na bacia, do pouco carinho de mãe e de brincar com outras crianças. Os homens fortes me fascinavam, seus braços construíam cabanas em poucos minutos. As mulheres não, elas conversavam e brigavam demais. Também mudavam demais de humor. Todas as broncas vinham delas. Já os homens guardavam seus mistérios. Sempre partiam corajosos e unidos. E voltavam transformados. As mulheres sempre ficavam, e eu com elas.

Maior um pouquinho constatei: existiam outros lugares e outros modos de vida. Fui, parti! Da mesma forma como nasci. Em outro mundo chegando logo vi que cada modo de vida é para um vivente. Eu deveria fazer parte do mundo dos que permanecem pequenos mesmo depois de terem crescido, como num tabuleiro de xadrez onde as peças são sempre altas ou sempre pequenas. Contudo a descoberta mais surpreendente foi sobre mim mesmo. Descobri que eu era diferente de qualquer outro ser porque minha cabeça pensava coisas que ninguém desconfiava! Então, passei a ter alguém que cuidava de mim, ela, a minha cabeça que me ensinou que também podemos crescer colocando roupas bonitas, tendo gente ou objetos interessante em nossa companhia... E foi conquistando coisas, gente, novos lugares que tornei me grande.

Quando percebo me partido, ou despedaçado faço uso de um objeto colante que junta os pedacinhos e faz com que todos me vejam grande como uma estatueta romana, e então sorrio pro mundo como um cão faz pro seu dono. Ah, me alimento de algo de muita sustância e cor intensa, sabor pertencimento ao grupo dos homens que partiam unidos. Unido, isso não sou. Mas me compadeço das ações dos que são. Assim como gosto do glamour das celebridades inatingíveis... Admirando os aproximo me do menino que fui. O menino para quem os mundos e seus homens eram inatingíveis.


(Andréia Almeida escreveu este retrato em 1ª pessoa a partir do auto-retrato em colagem feito por Camila)

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Essa tal de...


Essa tal de Camila deve ser uma sujeita interessante. Cultua e defende o Oriente, em especial as mulheres, pois feminista que só ela, é contra injustiçase preconceitos. Acredita no poder da mulher.

Também é uma “louca do livro”, lê tudo que lhe derem. É... ela deve ser interessante.

Além de “louca do livro”, é uma “louca do esalte” e “louca do doce”. Quanta loucura!

Essa tal de Camila gosta de natureza e de política, juntando duas ideias, gosta dos projetos de outra tal Marina Silva. Não gosta de corrupção e mentiras, aproveita o bom da vida.

Essa tal de Camila deve serinteligente e engraçada. Gosta de xadrez e de Borat. Também gosta de animais. Soube que tem um gato e um cachorro. Ela gosta de história e arte. Quantos assuntos ela está à parte?!


É...

Essa tal de Camila...


(E este retrato em 3ª pessoa foi escrito pela própria Camila)


Mania de observar


Meus olhos, os meus olhos, parecem que só procuram a minha origem. Estou sentada agora, num corredor, longo, vazio. Tem uma poltrona ali, virada de frente para uma porta. Antes de qualquer coisa, digo que tenho a mania de observar.

Morangos, os morangos, são produzidos pelos morangueiros,
que é uma planta da família das Rosáceas. Existem cerca de 20 espécies, inclusive silvestres, com ampla distribuição nas zonas temperadas e subtropicais. Descobri isso porque li. Leio com uma boa freqüência. É uma questão de costume. Ah, ela é rica em vitamina C.

Eu peço desculpas desde já, sinto dificuldade quando tenho que falar de mim. Ainda mais em público, assim. Sou contida mais em mim. Entendem? Eu me dou muito bem com a natureza, com os animais, por isso que eu digo que procuro a minha origem.

Por falar em animais, gosto muito de comer frango assado. Opa! Não! Quando digo que gosto de animais não é para comê-los, gosto deles vivos, porém não nego que como frango assado, com certa vontade, admito. (pausa). Pensando agora, essa é uma questão dual para homem, comer aquilo que anda, sente, emite algum tipo de som, ainda mais se sentimos algum tipo de sentimento pelo ser. Não vou desenvolver isso agora, deixo para mais tarde.

Ia falar dos morangos, mas vou me estender, então... Acabei.


(Caroline Cunha Duarte escreveu este retrato em 1ª pessoa a partir do auto-retrato feito em colagem por Priscila)


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A tristeza lhe corrói

E o vazio se constrói

Mas em meio à natureza

Surgi-lhe uma certeza

Um desejo descontrolado

De comer um frango assado.


(E este é o retrato em 3ª pessoa escrito pela própria Priscila)


terça-feira, 7 de setembro de 2010

Sarrazac - Inspiração





São duas horas da manhã e não conseguia dormir
“Um teatro em vias de fazer-se”
Queria escrever
“Públicos bastante variados”
Não tinha saco pra me levantar da cama
“Liberar a expressão pessoal de cada participante”
Senti frio
“Vozes silenciosas”
Tentei dormir
“Coro discordante”
Me peguei pensando de novo em como será
“Não manifesta nenhuma prevenção contra uma tal estética induzida”
Tenho de ler mais
“Escolhi recusar esse fenômeno da estética induzida”
Continuar observando as pessoas na rua
“Aqueles que já tem uma grande experiência de escrita”
O relógio do meu quarto não faz barulho
“Aqueles que são totalmente neófitos”
O sono ia chegar
“Próprio caminho”
Tinha de chegar
“Tensão-ação-silêncio-o eu”
A rua fica sempre mais silenciosa à noite
“O teatro pesa com todo nosso peso no chão”
E mesmo assim, há muitos que também não conseguem dormir
“Crise de paranóia familiar”
Ou não podem, ou não devem dormir
“Cada um faça ouvir, no sentido próprio, sua voz”
Simplesmente porque estão vivendo
“Uma re-escrita quase permanente”
Ou trabalhando
“Da qual nos fala a psicanálise”
Finalmente eu senti o sono
“A atenção e o interesse do ouvinte correm o risco de se esgotarem”
E a cidade continuou... Lenta, mas continuou
“Intertextualidade”
Quantas coisas acontecem ao mesmo tempo?
“Aprendeu mais ainda nesta outra obra, a vida”
O Tempo é relativo
“Desalojar o escritor de uma atitude do tipo “diário íntimo exposto em cena”
Ouço isso sempre
“Seja absolutamente transformável e adaptável”
e a hora de acordar chegou; já era mais um dia

(Carla Silva)

(Este texto foi enviado como comentário ao post anterior. Por se tratar de um ateliê de escrita e dado o tratamento "semi-ficcional" do comentário, achei estimulante publicá-lo como postagem - uma espécie de aparte, de narrativa paralela às demais contribuições à discussão. Adélia Nicolete)