domingo, 27 de fevereiro de 2011

Texto de Azê Diniz



(Foto: Adélia Nicolete)



- Eu avisei! Não era para esse lado! Eu disse...
- Mas as setas estavam alternadas, quer dizer, trocadas... E agora?
- Sei lá! Melhor colocar o triângulo.
- E agora? O que a gente faz?
- A gente não! Você!
- Vou fugir!
- Não! Tem testemunha. Eu vi e ouvi! Eu ouvi uma mulher gritando...
(Voz em off): Corre, senão você morre! (Som de freada de carro)
- Não consigo mais olhar. Tá todo torto... Todo sujo... Tá tudo quebrado...
- Então não olha pra ele! Olha pro céu!
(E do menino só restou um pipa ao vento...)
- Ó lá! A polícia vem vindo...
- Ai! E agora?


Luiz Sacilotto - Concreção-9213 - acrilica-sobre-tela-110-x-110-cm - 1992


Concreção 005 - Diálogo com a cidade



Luiz Sacilotto - Concreção 005 - 2000 - escultura em aço carbono pintado, 4 m de altura
(Foto: internet)


Esta foi a obra escolhida para nossa apreciação. Instalada no calçadão da rua Oliveira Lima, centro comercial de Santo André, Concreção 005 aponta em várias direções. Situada na confluência com a rua Monte Casseros e a Praça do Carmo e bem no meio do calçadão, assume variadas formas de acordo com nossa origem, nossa posição e nosso olhar. 

Concreção 005 pode ser vista ao longe. Um ponto de referência gigantesco, porém, invisível.

Participantes do ateliê sentam-se "na obra", misturados aos transeuntes
(Foto: Adélia Nicolete)

Invisível porque tornou-se banco, descanso, ponto de encontro, suporte de pichações e propagandas coladas. Invisível porque ninguém sabe o que é aquilo - e a placa com sua  identificação está quase invisível também.

Mais invisível ainda está o próprio chão-arte  da rua Oliveira Lima. A intenção era homenagear o artista andreense reproduzindo no solo alguns de seus traços. Mas quem sabe disso? Que importância isso tem quando não é de conhecimento público?

Calçadão da rua Oliveira Lima - Santo André
(Foto: internet)


O grupo saiu a campo num processo individual de observação sensível do trajeto, da obra e seu entorno.
Depois de discussão em sala, de troca de impressões, partiu-se para a proposta de escrita de um diálogo com, no máximo, 12 falas e que, de alguma forma contivesse alguns dos elementos registrados na observação.


Adélia Nicolete

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Texto de Mariana C. de Lima


Tomie Ohtake - Sem título - acrílica sobre tela - 1993 - 130 x 130cm





Cheguei em casa. Depois dessa batelada de exames, nada me alivia o cansaço. Nem um banho demorado. Não vejo mais graça ao sentir a água morna da ducha forte. Dessa vez não tem jeito... Agora já se espalhou pelo corpo... Os médicos disseram que o tratamento é agressivo, pesado. Já me alertaram sobre as reações adversas. Vômito. Dor. Diarréia. Perda de apetite... Me antecipo!

          Engraçado que agora prefiro ficar aqui sozinha. Não quero que eles me vejam assim. Não preciso de ninguém agonizando pela minha agonia, pela minha aparência. Preciso esperar sozinha pela dor. A dor física e a de ver meu cabelo voltar lentamente a crescer.

Quarentona empresária - Texto de Miriam Dias de Oliveira


Tomie Ohtake - Sem título - 1991 - acrílica sobre tela - 200 x 200 cm



Assim se passaram 11 anos, parece que foi ontem a empresária já caminhava pequena e limitada com nenhuma sombra de expansão.
Esta empresaria não conseguia enxergar o todo. Limitada no seu circulo vicioso, conformada com a situação.
Até que houve uma explosão, se auto percebeu e então começou o trabalho interno e externo, crescimento pessoal e profissional vencendo barreiras mesmo com opiniões contrárias seguiu firme na sua direção.
De personalidade expansiva e intuitiva. Hoje é como o fogo que arde sem se ver.








2ª versão:


Os negócios estavam bem e a vida confortável, quando a crise financeira chegou. A empresária entrou em declínio vertiginoso, num buraco escuro sem fim. Ali no fundo do seu poço, sozinha, sem forças e sem nada.

Vagando pelas ruas, sem identidade, sem destino, trapos em cima de seu corpo fraco, tinha comida, um cobertor e um cachorro para se proteger e se aquecer.

De repente houve uma explosão e um clarão em seus olhos. Ao abri-los, se viu na UTI – acordara de um coma profundo, 11 dias se passaram, mas como se fossem 11 anos. Naquele dia a empresária completava 40 anos.


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Texto de Tátila Colin



Tomie Ohtake - Sem título -  1993 - água tinta, soucre e água forte - 53 x 79cm


Não! Eu não consigo! Por favor! Eu não posso! Você não faz idéia do quanto foi difícil ficar assim! Tira essa merda daqui... Mãe!!!
Pede pra ela entrar. Eu não quero!Não! Sai com isso daqui. Eu vou ficar inchada. Se eles não me escolherem eu te mato!
Mãe!!! Mãe me tira daqui. Ai! Isso ta me machucando. Mãe ela quer me forçar. Eu cuspo, eu vomito tudo. Eu não quero. Eu não posso! Eles não irão mais me chamar. Ela falou, ela me avisou que eu não podia. Liga pra ela mãe. Tira isso daqui! Eu não preciso dessa merda! Eu não quero comer. Por favor! Não moça!
Mãe, não deixa...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Texto de Mônica dos Santos

Tomie Ohtake - Sem título - 1970 - óleo sobre tela - 170 x 200cm


Temporal. Que um dia guardado numa pequena caixa, esqueceu seu nome.
Tenho conhecimento profundo da tua alma. Por isso sei desta tempestade. Faço parte de teus pensamentos desde que era sereno de madrugada vazia.
Sou tua alma, chuva de verão por vezes maldita. Alter-ego crítico: Abaixo a gentileza de aparência e a aparência de gentileza.
Detesto a limitação das caixas fechadas e por isso determino: Grita!
Anula tua mãe! Mata teu pai! Apruma teu rumo. Encontra teu verdadeiro país. Esta fôrma não é tua. Não foi feita deste barro. Não é deste jardim.

Glóbulo - Texto de Elen Domingues



Tomie Ohtake - Sem título - 1989 - acr. sobre tela - 75 x 150cm



Hoje eu to com a boca mais amarga que de costume. Nossa! como é horrível tudo isso...
...e pensar que há alguns meses atrás eu tava vivendo a vida adoidado, como diria aquele filme da sessão da tarde...
Tava feliz com o Marcos, a gente se dá bem, temos o mesmo gosto para roupas, para a mesma loção pós barba...
-Alô? Oi meu amor, tava pensando em vc agora...tá tudo bem? Tbm te amo! Tá vou te esperar aqui...bjo
Nada teria muito sentido se não fosse ele...
...a minha família tá longe, meu neto querido...
...e eu to aqui...sozinho...
mas a gente nasce sozinho e teima em se prender as pessoas...Não somos nada...apenas...
...eu não agüento mais vomitar...
...meus cabelos estão ralos...mas eu vou sair dessa...Se Deus quiser