quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Sorvete de pistache - por Solange Dias



(Sandra Cinto - Instalação "Construção", 2006, desenhos sobre papéis tingidos)


Barulho de máquinas de lavar. Ela carregando um cesto pesado de roupa.
Ele com uma sacolinha. Poucas roupas.

O VELHO - Minha mulher foi embora.

MULHER - Hum!

O VELHO - Filha da puta, ela é quem devia de lavar estas roupas. Não sei usar isto, não!

MULHER - As brancas com as brancas, coloridas com coloridas, bota dentro, aperta o botão e espera.

O VELHO - Sessenta anos de casado... Filha da puta. Sabe o desenho do pica pau? Ele sempre se dá bem mesmo quando se dá mal. Ele é um grande de um sacana.

MULHER - Sei.

O VELHO - Filho da puta. Igual minha mulher. Parecia um anjo... Só parecia... Levei sessenta anos pra descobrir.

MULHER - Acontece.

O VELHO - Você é bem forte, hein? Nem parece mulher. Quando entrei aqui e olhei pra você, pensei: o que faz uma mulher ficar com esses músculos de homem, pra que isto?

MULHER - Paciência.

O VELHO - Pensei que se minha mulher tivesse esses músculos de homem eu enfiava a mão na cara dela.

MULHER - Que bom então que ela foi embora.

O VELHO - Sabe, quando eu tava de bom humor a gente ia numa sorveteira. A gente gostava de tomar aquele sorvete, aquele verde, meio azul, sabe qual é? Aquele de nome esquisito?

MULHER - Pistache.

O VELHO - Este mesmo. Pistache. Filha da puta. Ela tinha que ter ido embora? Olha, tá escorrendo água pelo chão.

MULHER - Hum, hum...



(A situação acima foi criada pela Solange Dias. Trata-se de uma primeira versão, baseada em nossa apreciação da obra da artista Sandra Cinto, apresentada na postagem "Sem título - obra de referência".
Outras versões serão escritas a partir de sugestões e análises feitas neste blog pelos colegas e outros interessados)

8 comentários:

  1. Eu gosto do tom ranzinza do velho até porque, quando sofremos por alguém sentimos raiva mesmo. E ele mescla a raiva com lembranças boas e aí sente mais raiva ainda. Acho muito rico! Gosto também da personagem da Mulher, de outra geração, sem tempo, sem paciência com o velho... e esse encontro é muito interessante.
    Mas eu senti falta de alguma coisa, não sei o que... Então meu "e se" vai ficar um pouco incompleto, talvez os comentários dos outros colegas completem o buraco que eu vou deixar aqui.
    Acho que o velho provocou a mulher para ele ter com quem brigar, já que a mulher não está mais ali para isso. E a mulher não entrou na dele. Deu uma ignorada. Talvez o meu "e se" seja que a mulher se deixasse afetar pelo velho... não sei ainda.

    Prometo que eu vou pensar mais nisso.

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  2. eu gosto de textos assim. que falam do cotidiano. é o velho que não enxerga o outro, que já está impregnado de manias. a mulher que não tem mais obrigação de conversar se não quiser. a máquina que serve para um e para outro é um tormento. é isso... gente de verdade.

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  3. Sol!
    gosto da forma como você trata o cotidiano!
    Sinto muito claro o todo desse momento. E me toca por dois motivos:
    1. por ser mesmo algo com o cotidiano, forte aguçado, sem melindre.
    2. aqui vou concordar com a Carina, algo hace falta, mas acho que imagino o que seja, vamos ver se colaboro mais que complico...
    falta o tempo...
    mais tempo pra gente ir além, saber mais, se aperceber da grandeza que é esse simples.
    Talvez...apenas talvez possa ser isso...

    beijares e abraçares, Elaine

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  4. Adriano Galego Geraldo11 de novembro de 2010 às 17:03

    Ótimo!!! Adorei o sorteio desses personagens! Sol acho que esse texto deve continuar, o sabão escorrendo, um acidente, algum personagem novo entre eles. Quem sabe alguém fazendo a manutenção da máquina e servindo de um tipo de juiz ou mediador para a conversa dos dois. Vejo uma multidão lavando a roupa suja. :)
    Galego

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  5. Galego! que idéia intrigante!

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  6. Sol,
    Gosto bastante deste encontro, deste desabafo do velho, que para mim também pareceu procurar briga ou quem sabe achar no outro (aqui a moça alterofilista) a força que já não há nele, ou provocar alguém sabendo que irá apanhar como uma auto punição. E complementando o E SE genial do Adriano, um observador-narrador de luta que transmita e mantenha a tensão de alguém provocando uma confusão e todos os sentimentos dos envolvidos.

    Bárbara

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  7. Como ocorreu no texto do Adriano, também senti um terreno fértil pra direção e interpretação. Um terceiro e emudecido personagem que fica numa espécie de recepção e observa a fauna que frequenta o local.
    O Velho entra primeiro, com a sacolinha. Não sabe mexer direito nos botões, esbraveja. A Moça entra depois, carregando o cesto. Trata do serviço com desenvoltura. Senta e espera, folheia uma revista, enquanto ouve o ipod.
    Ele puxa assunto, ela não escuta direito. A conversa segue exatamente como está, mas com pausas incômodas.
    A solidão dos três personagens invade a cena, como a água que vaza das lavadoras.

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  8. Queridos, obrigada pelos comentários e pelas ótimas sugestões. Eu também gosto desses dois e acho que pode dar pano pra manga, sim, colocar um terceiro personagem. E a ideia de ser um espaço de lavagem de roupa suja é tudo de bom...

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