terça-feira, 19 de março de 2013

O LÍQUIDO TÁTIL, do grupo espanca! - uma reflexão sobre as relações humanas, o teatro e uma porção de coisas mais...



Marcelo Castro, Grace Passô e Gustavo Bones
(Foto: Guto Muniz)

Diante de um espetáculo como O líquido tátil, mais recente trabalho do grupo espanca!, de Belo Horizonte, ficamos cada vez mais convencidos da importância da informação que antecede a apreciação de uma obra. A arte contemporânea, assim como a moderna o fazia, propõe um outro posicionamento do público, que não mais o de “recebedor” de um pensamento já pronto e pré-articulado, a ser “consumido” sem maiores esforços.

Os modernistas inauguraram a prática do programa como guia da fruição. Até então uma obra deveria ser “auto-explicativa” e o figurativismo servia perfeitamente a esse propósito. O rompimento com a representação trouxe a necessidade de um texto paralelo à obra, que pudesse orientar o espectador na compreensão dos propósitos do artista, bem como da corrente a que se filiava, etc. Diante de um trabalho, quem sabe obscuro, tinha-se à disposição uma série de referências capazes de nortear a leitura, ligando o pensamento do autor ao pensamento daqueles a quem a obra era destinada, familiarizando o público com as propostas de vanguarda.

O pesquisador francês Patrice Pavis, em seu livro A análise dos espetáculos, aborda justamente esse ponto. Para ele, o público tem atualmente a seu dispor uma grande quantidade de informações acerca de uma produção (acesso às publicações da área, à imprensa, a blogs e sites dos grupos, etc.), e pode lançar mão disso tudo como potencializador da apreciação. De certo modo, “sai perdendo” quem vai assistir a certos espetáculos – ou exposições e concertos – sem qualquer referência a seu respeito ou a respeito de quem os está propondo. Contar tão somente com a própria sensibilidade ou com o que se traz das experiências anteriores, sejam elas subjetivas ou especificamente culturais, é arriscar-se a uma fruição que está aquém daquela sugerida pela obra.

O fato de conhecer o grupo espanca! desde o seu início marcante com Por Elise, seguido pelo aprofundamento da pesquisa colaborativa e temática com Amores surdos, pela radicalização cênica e discursiva de Congresso Internacional do Medo e, finalmente, pela associação com o grupo XIX, de São Paulo, na criação e encenação de Marcha para Zenturo, deu-nos a oportunidade de ver em O líquido tátil um amadurecimento, uma virada de página que, sem dúvida, influenciam positivamente na apreciação do espetáculo.
As informações acerca da obra do dramaturgo e diretor argentino Daniel Veronese e de sua atuação artística e política permitem igualmente que a interpretação do espectador não sucumba em meio a tantas metáforas caninas, galináceas e tabagísticas.

Marcelo Castro, Gustavo Bones e Grace Passô
(Foto: Guto Muniz)


Apesar de Veronese entender esse texto como uma comédia, tal classificação não consegue descontrair o espectador. Os personagens pretensamente “inferiores” a nós, canastrões com suas taras, seus traumas e suas manias, são fortes o suficiente para instaurar e manter uma tensão que percorre toda a cena – o riso gerado, portanto, é igualmente tenso. Nina, Peter e Michael são assustadores e, à medida que transcorre o tempo, sua relação, carregada de violência, quer extrapolar a ficção e alcançar a plateia.

Tal extrapolação é sugerida por uma série de dispositivos. Um deles é o estabelecimento de diferentes esferas de discurso: inicialmente, enquanto o público entra, os atores já estão em cena e, embora não conversem, cumprimentam a todos, fazem sinais aos conhecidos, instaurando uma atmosfera diferenciada. Não há os três sinais tradicionais, por exemplo e o início do espetáculo é marcado por uma convenção interna do grupo, invisível, provavelmente determinada pelo silêncio dos espectadores já assentados. Assim, a encenação propriamente dita (se não considerarmos a recepção como fazendo parte dela), começa com uma situação tipicamente realista, ou seja, com o diálogo interpessoal entre os personagens num cenário que imita uma sala de estar, com porta, sofá, mesa, cigarro, etc. Em pouco tempo Nina quebra a forma dramática e cumprimenta o público que, sem dúvida, não é o público real que assiste ao espetáculo. Nina é uma atriz que expõe seu drama ao cunhado (Michael) e a quem mais deseje ouvir – ou tenha comprado ingresso, mas não queira sair do teatro, como ela mesma diz. Aos poucos, os demais personagens também se expõem uns aos outros e aos supostos espectadores, exposições que mais ocultam que revelam.

Uma outra esfera é estabelecida quando Michael abandona a cena e dirige-se à plateia, dessa vez indagando diretamente sobre as preferências entre teatro e cinema. Essas diferentes alternâncias entre os discursos intra e extraficcionais problematizam a posição convencional do espectador diante da cena e geram uma ameaça constante de invasão do real pela ficção.

Ocorre um agravamento dessa ameaça na medida em que o próprio cenário começa a se mostrar como tal. Os personagens descartam lixo por cima das paredes, Nina dá pontapés no que parece alvenaria, mas o som que se escuta é de madeira compensada. Ela arrebenta a porta e a placa é reposta em seguida, como se aquela cena ocorresse todas as noites. Finalmente, quando personagens e relações já se mostraram suficientemente artificiais, é hora de concretizar essa revelação por meio de um cenário que se desmonta, que se mostra precário.

Marcelo Castro, Grace Passô e Gustavo Bones
(Foto: Guto Muniz)



Veronese escreveu O líquido tátil em 1997 e sua justificativa quando o sugeriu ao espanca! foi tão somente o desejo de vê-lo remontado. Diretor da produção brasileira, Veronese dissuadiu os atores de tentarem buscar explicações, mensagens cifradas ou qualquer outro tipo de análise da peça. Solicitou apenas que decorassem o texto e, na estada do grupo em Buenos Aires, tratou de marcar os movimentos de cena e fazer adaptações no original. O sentido, para os intérpretes, deveria ser construído de fora para dentro. No caso dos espectadores, ele deveria ser elaborado a partir de um certo esforço, já que a aliança dramaturgia/cena está longe de fornecer pistas seguras de significação.


Retomando nossa reflexão inicial, é importante saber um pouco que seja sobre o projeto estético de Veronese e sua valorização do trabalho do ator, por exemplo, em detrimento dos demais aspectos da cena. Ou de sua pesquisa sobre o realismo e a contemporaneidade, para que nossa leitura do espetáculo possa ultrapassar a mera tentativa de apreensão de uma fábula qualquer. Não cabe aqui o levantamento de possíveis interpretações, no entanto nos permitimos sugerir uma apreciação sob a ótica do teatro, em suas mais variadas acepções – política, artística, histórica, estética, convivial, cotidiana. E como o teatro fala de ações humanas, uma leitura sob o ponto de vista dessas relações também nos parece válida. Enfim, que O líquido tátil de que fala o texto possa penetrar em cada um e causar o efeito que melhor convier.

No que se refere ao trabalho dos atores, ainda que vejamos na interpretação de Grace Passô, Gustavo Bones e Marcelo Castro índices de personagens anteriores, a relação quase promíscua com a cena permite que acompanhemos o metabolismo dos intérpretes na difícil tarefa de sair de uma cena dramática e voltar a ela, depois de uma escapada épica; na construção e posterior desconstrução de situações; na ilusão de uma relação com a plateia. Ou seja, apesar das fortes referências de outras encenações do grupo, vê-se em O líquido tátil os três atores acrescentando uma nova camada, significativamente diferente, à sua pesquisa compositiva.

É também gratificante e nos causa um grande alento ver o trabalho de Grace Passô ganhando consistência em todas as áreas em que se dispõe a atuar. Sua dramaturgia já é reconhecida, as direções de que se encarregou ultimamente denotam uma reflexão cada vez mais aprofundada, mas nada disso fez com que se descuidasse da interpretação. Nina é um personagem exigente e perigoso que Grace encara, expondo-se ao ridículo, ao patético, ao cômico, ao melodramático, ao grotesco, atirando-se na vertical, sem colete salva-vidas.

"encontro tátil" do grupo espanca! com Daniel Veronese

Nessa virada de página, o espanca! desprende-se da criação compartilhada do espetáculo, do trabalho com as referências particulares e com a pesquisa temática para a criação. Mergulha no outro – texto e direção – e assegura um encontro cada vez mais marcante com o outro – o espectador.


Serviço:
SESC Pompeia - SP
até 28 de abril de 2013

sextas e sábados: 21h
domingos e feriados: 19h


4 comentários:

  1. dalila teles veras19 de março de 2013 12:16

    Que bacana, Adélia! Aprendi muito aqui. Fiquei com uma vontade danada de ver, mas... Esta semana a coisa está pegando fogo por aqui... Ainda assim, tentarei. Bom ver o blog ativo!

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  2. Que bom que curtiu o texto, Dalila. Sei que os 21 anos do Alpha estao consumindo seu tempo, mas se puder escapar... :)

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  3. Adélia ! quem sabe quando voltar dará tempo para vermos juntas. Gostei imensamente do título, só isso já vale uma reflexão, das boas!!! beijos

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  4. Pois é, Elaine, fica so ate dia 24... Voce ainda estara no estrangeiro! :D

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