terça-feira, 3 de abril de 2012

Ítaca é cinza



...E o que sentia era uma enorme saudade do futuro... 
perdoe-me se eu não soube me despedir...
Espetáculo do Teatro da Transpiração em cartaz no Parque Escola de santo André - SP


Ítaca é cinza


Inauguro a retomada do blog com uma postagem que fala diretamente à nossa pesquisa, mas também ao nosso sentimento. Acho que não haveria motivação maior que comentar um espetáculo cuja dramaturgia foi feita por uma participante dos ateliês. Trata-se de Bárbara do Amaral e sua atuação – também como atriz – em ...E o que sentia era uma enorme saudade do futuro... perdoe-me se eu não soube me despedir...a mais recente realização do Teatro da Transpiração, de Santo André.

Acompanhei um ensaio aberto, ainda em 2011, e a pesquisa já estava delineada. A partir de algumas questões iniciais sobre a trajetória da vida, os atores fizeram depoimentos por meio de cartas, que foram aos poucos sendo transformados em cenas. Segundo o programa do espetáculo, o trabalho de dramaturgia consistiu em operar “a partir” desse material. Ou seja, as experiências foram “misturadas, cortadas, modificadas, ampliadas, costuradas, expurgadas, readmitidas, parodiadas, coladas etc” tendo como norte o mundo contemporâneo.

Trata-se de um projeto ousado e arriscado. O grupo vinha de quase dez anos de criação com base em peças já existentes e em obras literárias. Por mais que esse material fosse também modificado, ampliado, parodiado, havia um terreno sólido e relativamente conhecido – dos artistas e do público – por onde estender ou erguer criações outras. Por outro lado, esses quase dez anos de investigação talvez acabassem por pedir um salto, uma passagem, principalmente em relação à dramaturgia. De certa forma, ...E o que sentia... vem responder a essa solicitação do próprio processo.

Um tema como esse – a vida e seus ciclos - repleto de subjetividade, se escrito por um único dramaturgo, muito provavelmente teria uma configuração diferente do que encontramos nesse espetáculo. Aqui, a fragmentação é a principal característica a denunciar os diversos corpos que compuseram cena e texto. Além dela, uma heterogeneidade de abordagens, que foge a uma identificação imediata de unidade e de sentido, por exemplo. O processo colaborativo, como chamamos o procedimento de criação utilizado, ao compor com elementos por vezes tão diferentes, resulta no que podemos chamar de estrelamento, ou seja, a partir de um ponto comum, detonam-se respostas diversas. O modo como cada grupo vai tratar cenicamente essas respostas vai ser a marca do trabalho. Pode-se buscar uma unidade mais firme, seja por meio de personagens que se mantém ao longo do espetáculo, seja por meio de um espaço definido que abrigue as cenas, de um recurso de texto – a poesia, por exemplo - que unifique todas as propostas. Esse enquadramento é um trabalho da dramaturgia.

No caso de ...E o que sentia...houve uma busca visual de unidade, dada pelo figurino-base na cor cinza, sobre o qual se revezam adereços de outras cores. Ótima ideia para se fugir do tão repetido preto. O cinza comum posiciona todos os personagens numa mesma trajetória – a da vida, a da linha do tempo, da linha da estrada, da viagem, seja ela real ou metafórica. E sobre ele tudo parece cair bem.

Outra unidade talvez tenha sido a do drama de cada um. Desde o drama vivido no primeiro dia de aula, passando pelas perdas, os desencontros, a impossibilidade de comunicação. Como cada um passou por suas crises e lidou com elas. Nesse sentido as cenas corais funcionam como dramas vividos coletivamente e colocam com mais força ao espectador que ele também faz parte daquela situação, senão naquele momento, ao menos em algo passado ou futuro.

A condução de cenas feita pelo robô-ator e pelo mordomo é outro recurso de unidade, a nos lembrar dos tempos que correm, cada vez mais rápido. Podem remeter também à passagem final do filme Blade Runner, quando o androide se lamenta por não ser um homem. No caso do espetáculo, ele ganha vida e, como os humanos, pega sua mala e entra na corrida.

Creio que a coragem do grupo em saltar sem a rede literária de referência tem, por vezes, o risco de um mergulho solitário, em que os acrobatas se divertem mais que a plateia. As cenas em que se atribui à música uma grande carga de sentido são um exemplo. Elas resultam longas e um pouco redundantes, por mais que haja carga dramática – como na cena do casal que rompe -, ou que o volume e a “pegada” do som sejam impactantes – como na cena final, das malas. Outro exemplo é a cena do game, que se estende além do necessário, até porque não é o público quem aciona o jogo.

Mas isso é detalhe diante da pesquisa e da proposta realizada. Bárbara criou belos textos de autoria própria e conseguiu elaborar uma dramaturgia que apresenta em grande escala a trajetória da vida de cada um e de todos. Não é a sua primeira experiência com dramaturgia no Teatro da Transpiração, mas o é como autora única, responsável por um projeto inédito. Não é fácil lidar com materiais subjetivos e íntimos dos colegas, com expectativas de dentro e de fora do grupo, com a presença de veteranos na condução das cenas - mesmo numa equipe madura e acolhedora. A nossa nova dramaturga saiu-se muito bem dessa primeira empreitada.

Estou certa de que o Teatro da Transpiração – e também o da Conspiração – saem diferentes desse processo. É como um vestibular, um casamento, um filho, uma despedida que nos jogam pra outro patamar da existência. No começo pode assustar. Olhar para trás pode provocar saudade, mas não há como voltar. Então é melhor olhar pra frente, pois a vida pede isso e é também o que buscamos - o aprimoramento. Seguir. Enfrentando feras, tempestades, sereias, mas com a certeza de chegar, seja onde for, e fazer de lá a sua Ítaca.





Adélia Nicolete 03 de abril de 2012


Esta postagem não se pretende uma crítica ou juízo de valor. Trata-se, acima de tudo, de um exercício de leitura da cena, com finalidade acadêmica.


7 comentários:

  1. Ainda não assisti a peça, mas fico feliz em saber deste processo todo, principalmente pela Bárbara, que tive o prazer de conhecer melhor nestes nossos encontros.
    Sua escrita é muito forte e extremamente rica em simbolos, nos fazendo viajar na imaginação através dos sentidos, o que me fez admirar o trabalho realizado por ela no Ciclo. Então, acho que posso postar aqui, mesmo sem ter assistido à peça ainda.... rs... Mas ainda vou tentar assistir e retomar meu post por aqui...

    Desejo que este filhotinho do Teatro da Transpiração, cresça forte e vigoroso, trazendo muitas outras alegrias.

    Bjos.
    Carina

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  2. Bárbara do Amaral disse: Adélia será que água proteica e sais minerais estragam o teclado? Chorei! Quanta atenção, generosidade e detalhamento na sua postagem! Estou muito emocionada e grata com tamanha dedicação, pois além do olhar da pesquisadora, enxergo um olhar que me abraça e impulsiona. Irei compartilhar com os transpiradores a postagem e o blog, pois todos estavam ansiosos por saber sua opinião. Um beijo enorme de quem te vê como um exemplo a seguir.

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  3. Carina, obrigada pela colaboração sempre constante. Se puder, va, sim, assistir ao voo solo da nossa amiga.
    Babi, haveria muito mais a comentar - atores, direçao, cena, trilha, coreografias, cenario, relaçao publico-cena e mesmo sobre a dramaturgia - mas preferi me concentrar em alguns aspectos e deixar espaço pra quem for assistir tirar suas proprias conclusoes! Parabens, querida, e pode seguir viagem na escrita!

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  6. Querida, obrigada! É importante seu retorno que é também nosso aprimoramento, até porque você é parte dele, não somente através do ateliê ou dos ensaios abertos. A sua parceria vem de outros carnavais e é natural que sempre tenhamos figurinhas a trocar. Sua pesquisa, sua inquietude, as conversas - mesmo corridas-,fazem parte dos nossos processos de criação também. Acredito, sim, que este espetáculo seja um divisor neste processo do Parque Escola, e como todo divisor, também um ritual de passagem, e como toda passagem, sem saber muito bem qual será a próxima etapa. Sabíamos somente da necessidade de fazer este percursso e ele tem valido muito. Beijos, beijos...

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  7. Solange, companheira de estrada, sabemos o quanto é difícil fazer teatro em nossa região e vocês são um exemplo de quem reclama pouco e faz muito.

    Seu trabalho só pode ser louvado, porque é, acima de tudo, um trabalho de formação. E quando digo formação quero dizer não só na arte do teatro, mas na arte e no desafio de se fazer teatro com poucos recursos, muito esforço, muita dedicação, muito prazer. Voces retomam a cada processo o prazer do coletivo e isso fica claro nos espetaculos.

    Boa sorte aos grupos, seja o que for que encontrem no final dessa passagem.
    Seguimos juntos, porque ninguem se forma sozinho, e eu me formo um pouco mais a cada contato com voces.

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