quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Catástrofe de natal? - por Andréia Almeida




(Sandra Cinto, título da obra a ser pesquisado)


Rapaz  _ Dona, cuidado!

Dona   _ Ai, desculpa!

Rapaz  _ An! Lá vem outro... (correm) Aqui! Por aqui! Sobe.

Dona   _ Eu? Não dá! Não consigo. (Ele a puxa) Obrigada.
Meu Deus, tava tão bonito, o que foi acontecer? (Ele não escuta e desce se arriscando para salvar sua mochila. A multidão que antes apreciava o presépio ouvindo as calmas músicas natalinas agora pisoteia tudo, o material escolar do estudante duro e os meninos que não são Jesus.) Menino! Cuidado! Gente... cuidado com o menino! (Ela o puxa)

Rapaz  _ Obrigado!? Nossa... O negócio ta feio.

Dona   _  Como sair daqui? Como voltar para casa?

Rapaz  _ Nossa... não voltar. Que bom. Uma desculpa. Prá não voltar para aquele inferno. O inferno daqui me impede. To começando a gostar...

Dona   _ Tá louco? Irresponsável! Não vê o que ta acontecendo? Uma catástrofe! (sem tirar os olhos das explosões) Isso numa época tão linda como esta? Isso num país tão abençoado como este?

Rapaz  _ (sem tirar os olhos das explosões) País abençoado só se foi na tua época. Catástrofe maior tá minha vida. (Nova explosão) Aqui pelo menos tem uma emoçãozinha, Zona! Vem mais para cá senão pode cair? (longo silêncio)

Dona   _ Prá mim não, nunca posso sair! Hoje que pude é isso que acontece?!

Rapaz  _ Vai dizer que não é no mínimo diferente? (O olhar foge para onde antes aconteciam as explosões para agora escaparem um do olho do outro. As demais pessoas a fim de salvar suas peles quase os esmagam.)

Dona   _ Mas... tenho minha casa... E a minha família... Que tenho que cuidar...



(A situação acima foi criada pela Andréia Almeida. Trata-se de uma primeira versão, baseada em nossa apreciação da obra da artista Sandra Cinto, apresentada na postagem "Sem título - obra de referência"..
Outras versões serão escritas a partir de sugestões e análises feitas neste blog pelos colegas e outros interessados)

8 comentários:

  1. Andréia, consigo ver claramente as imagens propostas em seu texto, principalmente a catástrofe que uniu esses dois que divergem. E por isto, sinto que eles poderiam ir mais fundo também. E se um deixar uma marca no outro? Lembra daquela história de que às vezes nos abrimos mais com desconhecidos pois achamos que nunca mais o veremos? E se o medo de um deles for tamanho ao ponto de não deixar o outro ir embora?
    Sol

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  2. gostei do diálogo que os dois personagens estabelecem. o velho e o novo conversando, mas sem o choque de gerações. apareceu o lado solidário dos personagens, que é inerente ao ser humano (nem sempre...). só um minúsculo "e se": e se vc deixar as falas do rapaz menos poéticas, pra fortalecer a diferença de idade, pois assim fica mais claro ainda que o que está em questão no texto não é isso, e sim a solidariedade, um querendo ajudar o outro?

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  3. Andréia,
    este teu novo texto me surpreendeu. Está enxuto.
    Mostrou com clareza um panorama que assusta e que gera novas escolhas nos personagens. Me deu vontade de saber mais. E reforço o coment da Solange, criar uma situação de agravo, como essa de não deixar o outro ir embora, ou ainda, "me impeça de ir, pois estou com medo" não dito as claras, mas em sub textos ou intenções, daria um peso extra ao teu escrito.
    Beijos, Elaine

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  4. Adriano Galego Geraldo11 de novembro de 2010 16:56

    A situação é tão inusitada que possibilita algo de muito original! O encontro de antagonismos entre fé e a falta dela, parece que o diálogo toma uma direção de confidências sobre o cotidiano que supera o assunto Natal. Quem sabe o quanto a troca dessas confidências pode mudar as visões iniciais de cada personagem?

    Galego

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  5. Sol, Carla, Elaine e Adri,
    Obrigada pelas dicas, desejo trabalhar com todas as sugestões na reescrita.

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  6. Achei uma coisa muito legal no seu texto, além do que já foi comentado, que eu concordo com tudo. Mas a rubrica, principalmente a primeira, está tão poética que poderiam até ser uma fala, de um coro ou de um narrador. E se vc explorasse a poesia na rubrica e deixasse os diálogos mais naturais?
    Gostei da redução do seu texto, você ficou com o essencial.

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  7. Fico imaginando o quão terrivel é a vida deste rapaz para ele preferir uma catástrofe a ter que voltar para casa. Me fez lembrar do filme Ensina-me a viver.

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  8. Como se trata de uma situação meio complicada de trabalhar realisticamente - e não há sugestões de tratamento não-realista no texto - sugiro que haja alguma solução narrativa.
    Então, embarco no comentario da Carina em relação à rubrica poética para anotar:

    - e se voce padronizar o tratamento das rubricas?
    - e se houver narrativas-depoimentos que possam dar conta visualmente (cf. Calvino) do onde, do quando, do que se passa? Esses personagens falam de si mesmos e também se narram e ao seu entorno. Talvez tivéssemos ainda mais claramente essa metáfora ou essa relação interno/externo de cada um.

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